quinta-feira, 15 de julho de 2010

Como numa fotografia.


O tempo não é algo que voa
Ele anda como nós,
Caminho errado no futuro se ecoa.
Vale nunca ficar só, no máximo a sós,
Pois nessa jornada capturamos pessoas.

Umas planejadas e outras por acidente
Momentos mágicos que são como estrelas,
Pois mesmo que não existam mais no presente.
Ainda assim, suas luzes podemos vê-las


Gabriel Hildenbrand

terça-feira, 13 de julho de 2010

Nostalgia. 1 - Rosa Minha -


Rosa minha, Rosa minha
Por que me deixastes?
Lembra-se de nós ao luar,
Contando pilhérias,
Para ver a vida passar?

Rosa minha, Rosa minha
Por que me deixastes?
Lembra-se de nós correndo contra o vento,
Tentando fazer o tempo parar?

Rosa minha, Rosa minha
Por que me deixastes?
Lembra-se quando tu dizias,
Que me amava e que íamos
Ficar juntos pela eternidade?

Rosa,
Lembro-me bem de ti
Seus cabelos cor de fogo,
Iluminando a negra névoa
Do meu coração.
Teus olhos melados,
Lambuzam meus pensamentos.
Seus delicados lábios finos,
Porém me provocava,
As mais sórdidas reflexões,
Célula por célula.

Rosa minha, Rosa minha
Vou lhe fazer uma única pergunta:
-Por que me deixastes?







Gabriel Hildenbrand, 13/11/02 - 14 anos

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Infeliz sorte ao sol que nascerá


Julgou-se de inteligente ser um tanto.
Auriculares murmúrios brandos, doces,
Jogo de palavras, teu sinistro encanto.
Árdua punição, que pra ti antes fosse,
Porém no meu silêncio, veio o espanto,
Virei à mesa e uma surpresa trouxe
À meu logro amor; perdão por não ser santo.


Por que, tu escolheste a mim para brincar?
Repulsa, tesão, provoca quando mentes
Perdido estou e preciso me encontrar,
Contudo também sofrerás infelizmente.
Labirinto de sentimentos, pra onde vá.
Presa nesta relação, Eva e serpente
Como o poeta diz é “rir pra não chorar”.




Gabriel Hildenbrand

terça-feira, 6 de julho de 2010

Solidão, inundada face da saudade.


Se somos feitos das mesmas substâncias dos sonhos, logo, tua essência vital impregna minha mente nas densas noites de inverno. Saudades tenho agora até do seu cheiro, sinto seu carinho nas congelantes brisas que acariciam meu rosto molhado, que em vão te aguarda.



Gabriel Hildenbrand

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ciranda à inevitável lição. Amar.


Cabeçuda, cabeça chata, cognome cacófato
Cara caricata, carranca , coisa caduca, canalha
Caftina, cabaré, carfanaum.
Cábula com certeza captei,
Cefaléia costumeira. Cansei.
Comentam, clamam: - Casem. Caralho...
Comemorariam certamente.
Cenário corrompido, calabouço cabreiro, calafrio constante
Caçador corrupto, caça crucificada certa
Cínica caaba, caminho cerúleo, chamuscada chama cresceu. Cochichei:
- Caluda!- Calei-me.

Amiga abnegada abluiu alma aguada, amarga
Algo adquiri ao almejá-la, afeto abissal, alindou-se
Agora as algemas anunciadas, até alegram-me
Acho admiração aos assuntos abobados articulados
-Aprecio a acéfala? Apartai amor! Apartai.

Ignoro-te, indesejável ímã irritante, impecável índia importuna,
Iris ilusionista, intensa, imergi-me impávido, incrédulo.
Individua irritante, impúbere, imunda imutável
Imunizei-me ingenuidade impulsiva, ignoro-te.
Incendiou, incinerou, incitou indefeso idiota.
-Imbecil impetuosa.


Labareda lábil, logo laçou-me,
Localizo-me labirinto lombricida
Labutei lacrar, louca libertinagem
Ligeiramente louco, lúdico ludíbrio.
Lisonja loba, litania lírica.
Lúcifer luzente lançou-me limbo.
Língua libertina lambeu-me, levitei.
Lucidez liquidada, livre-arbítrio limitado.
-Lutei, luxúria lunática lucrou. Luto.

Ainda adoro-te, à-toa afugentei.
Abduzido abrilhantado, abusão.
Abateu-me abstinência abusiva
Alteza anárquica, acabou a ancorar-me.
Anti-heroína arcaica, anjo arteiro.
-Atalhei amá-la anteontem. Amo-te agora, amarei ainda assim amanhã.








Gabriel Hildenbrand

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Memórias de um romance sem lembranças - Parte V


Dormia na recepção do hospital, quando sentiu algo tocando levemente seu rosto ainda molhado pelas lágrimas, assustada, Gabi desperta e se depara com Marcelo, que havia acabado de chegar e tentava confortar a amiga. Nunca a havia visto tão abatida, pois ao terminar de explicá-lo o que ocorria, caiu aos prantos, num choro compulsivo. Receoso, tentou convencê-la a ir dormir e descansar em casa, porém ela se negava e fazia questão de ficar no hospital, para acompanhar tudo de perto.
Horas se passaram, ela adormecera novamente, só que agora no quarto de Luiz, que continuava em repouso e inconsciente. Marcelo não podendo acompanhá-la foi para casa, mas pronto para qualquer emergência voltar. Foi à noite mais longa da vida dela e a mais angustiante.
Quando os primeiros raios de sol invadiam o quarto e refletiam em seu rosto, Luiz acordara. Confuso ao perceber que estava em um quarto de hospital, também notou que sua amada dormia numa poltrona, quase ao pé de sua cama. O ultimo fato de que se lembrava era o banho e logo depois um clarão aconteceu, a partir desse momento nada mais fazia sentido.
Com cuidado para não acordar sua exausta sentinela, se levantou e foi em direção a enfermaria, onde rapidamente trataram de chamar o médico que o havia examinado; para lhe explicar com detalhes o que estava acontecendo. Foi nesse momento em que a coragem até então desconhecida dele surgiu, pois sem se desesperar, ouviu tudo que aquele homem, que parecia não se importar muito com o fato mais tenso de toda sua vida.
Ao voltar para o quarto, olhou a adormecida mulher que em nenhum momento o abandonou, contemplando-a em seu sono, admirando-a e depois de um tímido sorriso, beijou sua testa, para então voltar a dormir. Ao meio dia em ponto, ela finalmente abre seus olhos depois de uma cansativa noite, se levanta da desconfortável poltrona que adaptara como pôde e se dirige a cabeceira da cama. Com os olhos já quase que secos de tanto lacrimejar, faz um cafuné naqueles pequenos cachos macios.
Ele sem abrir os olhos, abre um sorriso e agradece por não deixá-lo só naquele lugar, em seguida puxa-a pra cima da cama e a abraça de forma calorosa, como se não se a visse há anos. Falando “te amo”, diversas vezes ao pé de seu ouvido e acariciando sua cabeça.
A quimioterapia começava, a cada semana passada, uma batalha travada contra a doença. Mais magro, fraco e com a perda de cabelos, seu único estimulo de continuar vivo, era saber que toda vez quando dormia e sonhava com os anjos, acordava e via o seu sempre com um largo e terno sorriso, lhe dizendo que ao terminar aquilo tudo, iriam para Búzios, comprar uma cabana na praia e viver seu paraíso particular.
Tentavam levar uma vida normal, sem tocar muito no assunto da doença, mas era em vão, pois após quatro meses, seus cabelos agora eram ralos e poucos eram os tufos, o que fez ele tomar a decisão de raspar tudo de uma vez só, para acabar com aquela ânsia. Estava cada dia mais abatido, mais com coragem para continuar sua vida ao lado do seu primeiro e único amor.
A pedido de seu amigo Marcelo, Gabi resolveu um dia sair para se distrair e aliviar o estresse. Foram ao shopping os três. Ela, Marcelo e o seu novo namorado, Luiz ficara em casa para uma nova sessão de quimioterapia.
Num dos momentos em que lanchava com os dois num fast food, sentiu fortes enjôos e se dirigiu rapidamente ao banheiro do shopping. Achando que pudesse ter ingerido alimento estragado, voltou com os rapazes até a lanchonete, porém depois de mais um enjôo, voltou ao banheiro e por lá permaneceu por uma hora e meia.
Sem pestanejar, Marcelo mais experiente e sensato, pediu para a amiga ir na farmácia com ele comprar um teste de gravidez. Ela relutou muito, falou que era impossível, pois ele usava preservativo e ela tomava pílula regularmente, contudo no fim cedeu.
Foram a casa de Marcelo, ela foi ao banheiro fazer o tal teste, ele e seu affair agoniados na sala, esperavam o resultado. Depois de um tempo, eis que sai a protagonista de tal aflição, com o resultado do exame em mãos.
Com os olhos cheios de lágrimas, mostra o exame que apresentava uma listra vermelha e outra azul, ou seja, positivo de acordo com as instruções. Gabi estava grávida e seus sentimentos agora, eram uma fusão de medo e êxtase.


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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Memórias de um romance sem lembranças - Parte IV







A noite seguia e agora conversavam deitados num colchão com diversas almofadas e cercado de pétalas de rosas de variadas cores.
Ela contava seus problemas familiares, como a morte de seus pais e por não ter nenhum parente próximo. O que era algo em comum com ele, que nunca havia conhecido os seus e tinha sido criado pelo casal de padrinhos gays. A história dos dois era tão parecida que as vezes parecia ser a mesma e isso fazia o casal se identificar e compreender as suas frustrações, sabendo que outra pessoa também pensava de maneira igual.
No rádio anunciava a sessão da madrugada com os maiores sucessos do rei Roberto Carlos, riram de forma descontrolada, agora não pelo efeito da cannabis e sim pelas situações hilárias que aconteciam naquela noite. O silêncio tomou conta após as risadas, se encararam de forma fascinante, como o de costume, sem jeito e extremamente nervoso, ele ficava estático. Já ela começava a acariciar seu pálido rosto, sentindo sua barba e desejando seu corpo naquele momento.
O clima finalmente havia chegado, uma troca de carinhos, mãos deslizando, lendo e sentindo cada parte do corpo do outro. Com mãos trêmulas, como as de um menino, ele começava a abrir o seu vestido. Ela por sinal, beijava seu pescoço, enquanto puxava levemente seus cabelos, vendo que ele não conseguia de jeito nenhum se livrar do complicado sutiã, o tirou sozinha.
Pegou umas das suas suadas mãos e botou em seu seio, mais trêmulo que antes, tocava levemente com a ponta dos dedos seus seios, quase sem tocá-los.
Deitou no colchão, ela beijando todo seu corpo e tirando suas roupas bem lentamente, foi quando ele a interrompeu, com os olhos vermelhos e cheios de lágrimas.
Assustada sem saber o que tinha feito de errado, perguntou se o havia machucado. Luiz, ainda nervoso e com uma cara envergonhada a explicou que era virgem e que ele poderia fazer feio, logo se ela quisesse desistir ele entenderia. Vendo o choro do seu amor, ela o olhou de forma meiga e retornou a beijá-lo, agora tinha mais certeza do que nunca sobre o que sentia por aquele homem.
Foi o sexo mais mágico em toda sua vida, era muito mais que só uma transa, finalmente tinha entendido o sentindo da expressão “fazer amor”. O dia amanhecia e com ele os sussurros ao pé do ouvido, os corpos encharcados de suor. Suor, que pingava nas suas costas, aumentando ainda mais a intensa excitação do momento e tudo regado ao som do rei na rádio.
Depois de algumas horas, nus, ofegantes e completamente suados; finalmente pegaram no sono, com uma só certeza, nenhum sonho seria melhor do que aquele que viviam.
Ao acordar, Gabi se deparou com uma bandeja de café da manhã, que ele havia feito e a aguardava despertar, sentado e contemplando a mulher mais linda que já havia conhecido. Num leve sorriso, se acomodou para comer o café preparado com carinho, com frutas cortadas em diversas formas, desde animais de melancia a corações de mamão. Segurava o riso com medo de ofendê-lo, porém tinha achado linda à atitude do simpático ex virgem. Após o fofo café, foram tomar um banho juntos.
Brincadeiras, caricias, beijos, até que Luiz sentiu sua cabeça girar, caindo no chão do box inconsciente. Ela desesperada tentava acordá-lo, ao passar a mão em sua cabeça, notara que seu ouvido sangrava de forma intensa, sem conseguir levantá-lo, correu para ligar para a emergência. Partiu com ele na ambulância, aflita segurava firme sua mão e chorava de forma desolada.
Horas depois e terminado de fazer todos os exames, foi constatado um tumor no cérebro de Luiz, uma espécie de tumor degenerativo do sistema auditivo, que estava em uma forma avançada e espalhado por todo lado esquerdo de sua cabeça, porém havia cura.
Ele ainda estava de repouso e sem saber de nada, ela não acreditava no que ouvia e agora sentia muito medo de perder seu único amor.
Em prantos, chamou um velho amigo de infância para confortá-la. Marcelo, seu melhor amigo da época de escola e um porto seguro nessas horas, que preocupado disse que estava a caminho o mais rápido possível.
Gabi, sentia que podia perder mais uma pessoa importante na sua vida, senão a mais importante. Seu mundo estava desabando.






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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Memórias de um romance sem lembranças - Parte III


Duas semanas se passaram desde a noite inesquecível no Arpoador, os dois se viam com regularidade, se ligavam todos os dias, às vezes de madrugada, mensagens pelo celular eram de uma em uma hora. Tinham um relacionamento sadio e único.
Ele comprara uma lente de contato, cortara o cabelo, mudou o visual totalmente e ela finalmente estava encantada com um homem que valesse a pena.
Todo final de semana faziam programas diferentes, todas as amigas dela se apaixonaram por aquele garoto engraçado e ingênuo. Num jantar que teve da empresa, Luiz, que agora tinha o apelido de Fernandão, a levou e fez o maior sucesso. Ninguém acreditava no que via, um ex nerd lesado, com uma gata daquela, aquele cara realmente era o Cara. Com a fama de garanhão, bem dotado, agora ele se sentia completo. Não pela fama e o respeito de todos, mas porque finalmente se sentia desejado e importante para alguém.
Era um casal apaixonante, aquele tipo de casal que todos torciam para dar certo, pois eram ótimas companhias até mesmo para os amigos solteiros, já os casados tiravam como exemplo pára suas relações, aquela agradável dupla dinâmica.
Contudo, ainda não tinham feito sexo e Gabi já subia pelas paredes esperando que ele tomasse as rédeas, vendo que não ia acontecer, tomou coragem e foi para cima.
Marcou um jantar a dois em sua casa, por conselho das amigas. Resolveu fazer uma massa básica com um belo vinho para acompanhar e de sobremesa, mais uma dica das experientes conselheiras, algo que ajudasse na hora dos vamos ver, um delicioso bolo de cannabis, que diziam ser tiro e queda. Pegou a receita e partiu para preparar o jantar para seu homem.
Lá pelas seis da tarde, ele chegou. Todo arrumadinho, calça rasgada em um tom bem rebelde dos anos oitenta, blusa estilosa, sapatinhos de boliche, barba por fazer, era um novo homem que ali se via.
Numa das mãos trazia um vaso de orquídea branca, que ele fez questão de entregar para ela lendo um cartão com uma poesia que havia escrito. Sem ver nada decorado, a mesa nem arrumada estava, achou que tivesse chegado cedo ou que tinha desistido do tal jantar. Após colocar o vaso na mesa, ela o chamou para subir para o terraço, lá em cima ficou boquiaberto, havia uma grande estufa de vidro e dentro a iluminação das centenas de velas destacavam as cores das plantas e flores que ali tinham. Rosas vermelhas, azuis e brancas, haviam também bromélias, violetas e orquídeas que se entrelaçavam na entrada formando um grande arco, o caminho até a mesa do jantar era feito por milhares de pétalas de rosas. Ele não sabia o que falar daquela produção hollywoodiana, nunca alguém havia feito algo tão lindo pra ele, sentia-se um idiota por ter levado uma simples, pequena e humilde orquídea.
O jantar foi ótimo, pois apesar de não saber cozinhar bem, fez o básico e foi elogiada muitas vezes. O vinho, o havia deixado meio tonto, risonho e falando frases soltas sem sentido, não era muito de beber, na verdade nunca tinha tomado um porre na vida. No momento em que uma das musicas tocava, ele a chamou para dançar, contudo dançar nunca foi o forte dela, mas topou mesmo assim. Ela apoiou os pés sobre os dele, que a carregava e conduzia com leveza e carinho.
Olharam-se de maneira terna como se estivessem flutuando dentro daquela casa envidraçada e ninguém mais poderia fazer mal a um deles. Os belos olhos negros dela o faziam mergulhar em seus pensamentos e sentir todo aquele amor que o confortava e fazia seu coração pulsar de forma intensa. Havia descoberto a mulher da sua vida e estava loucamente apaixonado por ela.
O melhor ainda estava por vir, a tal sobremesa afrodisíaca. Ele sem saber de nada e com vontade de comer aquele belo bolo, devorou sozinho sete pedaços, quanto mais comia mais vontade de comer dava e ela olhando, morrendo de curiosidade de saber se ia mesmo funcionar a técnica.
Lá pelo décimo primeiro pedaço as plantas começaram a se mexer, algumas delas até puxavam assunto e outras morriam de rir dele. Nervoso e pensando estar louco, começou a se desesperar, ela sem saber o que fazer o abraçava pedindo calma, mas de nada adiantava. A sua voz estava distorcida e lenta, ele não sabia o que estava acontecendo, começou a pensar que o vinho poderia estar estragado.
Ela o explicou o que se passava, mas só piorou, porque para um cara que nunca havia tomado um porre na vida, ficar doidão de maconha era loucura demais. Porém com o passar do tempo, tudo parecia ficar mais engraçado e ele já estava até respondendo as flores, tava curtindo o seu momento. O momento mais louco de toda sua vidinha medíocre.


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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Memórias de um romance sem lembranças - Parte II


O dia ia chegando ao fim, depois de horas de conversa, resolveram ir a um lugar mais tranqüilo para ficarem a sós. Ela deu pediu para que escolher o local, tinha algo em mente, contudo tinha que ser surpresa até chegar e ele ainda perplexo com a criatura que tinha descoberto tava topando tudo, estava em suas mãos.
No caminho comprovou que além de uma mulher linda, com um corpo talhado de forma divina, engraçada e de personalidade forte, era também uma motorista de fuga de presídio, pois dirigia de forma louca e agressiva, costurava os carros, xingava os pedestres e muitas vezes conversava olhando para ele e esquecendo a direção. Ele mesmo tendo tomado seu café como o médico aconselhara, estava com ânsias de vomito e o ataque de tremedeiras estava num estagio avançado, tinha certeza que ia enfartar dentro daquele chevette setenta e cinco.
Ao estacionar o carro, Gabi pediu pra que ele tampasse os olhos e confiasse nela, sem titubear fechou os olhos, antes explicou que era só tirar os óculos que daria no mesmo, porém ela mesmo assim preferiu tampar seus olhos. Com os mesmos vendados, subiu uma espécie de ladeira ou pedra, chegando ao topo finalmente pode abri-los, porém não adiantou muito, porque mesmo assim nada conseguia ver, só após colocar seu telescópio facial. Nunca tinha visto algo tão belo, estava no alto das pedras do Arpoador e como vista o pôr do sol mais lindo da sua vida, na verdade o primeiro que havia parado pra ver em toda ela.
A brisa e a maresia acariciavam seu rosto, emocionado e sem palavras, sentia-se livre como as gaivotas que por ali sobrevoavam. Ela o abraçou pelas costas, com a cabeça apoiada sobre seus ombros, sua respiração suave e confortadora ao pé do ouvido o excitava. Aplicando um leve impulso para que ele se sentasse, começou a beijar seu pescoço e ao passar delicadamente seus grossos lábios em sua nuca, fez-se um arrepio em todo corpo. Com o clima esquentando a cada descida do sol sob os Dois Irmãos e o bater das ondas nas pedras, os dois finalmente tocaram seus lábios, algo mágico acontecia.
Ela o tinha nas mãos, o ingênuo garoto mal sabia o que fazia, apesar de ser mais velho, era ela que tinha experiência de sobra e o conduzia como numa dança. Suas mãos suavam de nervosismo, ele tremia. Afinal, nunca esteve com uma mulher tão linda ao lado, na verdade nunca tinha estado com uma mulher de verdade, em toda sua vida conheceu mulheres pela internet e possuiu as mais desejadas atrizes das novelas, em sua fértil imaginação ao banheiro, nos seus momentos de solidão.
A noite havia chegado e com ela o crepúsculo lunar, deitados se olhando fixamente, como que lendo a alma uma do outro e tentando decifrá-la.
Ele sem muitas malícias, alisava-a o rosto, com um sorriso de criança no natal. Ela apenas deixava as coisas acontecerem, se espantando com aquele franzino rapaz que só a admirava, pela primeira vez não queria só transar com ela, queria conhecê-la, escutar e entender. Passaram a noite toda juntos, sob a sentinela das milhares de estrelas que contemplavam aquele conto de fadas contemporâneo.


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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Memórias de um romance sem lembranças - Parte I


Despertador toca e a velha mania de mais cinco minutinhos de sono para poder despertar de verdade. Ao levantar, recomendado pelo médico, vai direto a cozinha preparar algo para comer, pois sempre que não comia pelas manhãs tinha ânsias de vomito e ataques de tremedeiras. Ao termino do café, escova seus dentes, sempre com sessenta e cinco escovadas, depois o inseparável fio dental, para só então o flúor, tudo cronometrado para não se atrasar. Um banho de cinco minutos sempre era o suficiente, se arrumava sem delongas para só então seguir seu caminho ao ponto de ônibus, tinha condições para um carro, porém seu psiquiatra o aconselhara a meios públicos para melhor relação e interação com as pessoas.
Um dia comum, mais um da intensa rotina e correria que era a vida de Luiz Fernando. Homem trabalhador, sem ambições e com uma vida que muitos taxavam de sem graça, mas isso até aquele dia que parecia ser igual a todos os antecessores.
No trabalho o de costume, esporros e mais esporros de seu tirânico chefe, era o motivo de chacota dos amigos e ainda por cima tinha uma namorada, que conhecera por um bate-papo na internet, mas nunca havia se encontrado, nem visto pessoalmente.
Nossa história começa no horário do almoço, pois foi nesse intervalo, que resolveu fazer algo diferente, algo novo, algo que quebrasse aquela monotonia. Partiu em direção ao restaurante japonês que sempre teve vontade de conhecer, mesmo não sendo um grande apreciador da culinária nipônica.
Chegando à porta, bateu aquele nervosismo, excitação, afinal era a primeira vez em anos que não iria comer na cantina da empresa. Estava decidido a tentar o inédito e logo se acomodou numa mesa pedindo o cardápio, a cada prato uma certeza, nunca tinha ouvido falar naqueles estranhos nomes e se espantou ao ver que cone era mesmo um cone cheio de comida.
Pediu um combinado, sete sushis, um creme viscoso e uma espécie de grama sintética comestível. Para não parecer leigo, começou pela tal grama, afinal num almoço se começa pela salada, passava o matinho estranho no creme viscoso e comia, contudo o raio do creme era pior que pimenta, os olhos lacrimejavam, ele evitando fazer careta para não chamar a atenção, mesmo com sua boca pegando fogo. Todavia já era tarde, pois ouvia risadas e mais risadas de algum babaca sem ter o que fazer.
Indignado, olhou discretamente para todos os lados, quando viu o malandro, ou malandra, pois naquele momento avistou a coisa mais linda que Deus havia lhe apresentado. Uma bela dama, com um sorriso largo e espontâneo, parecia enfeitiçado por aquele ser e sem notar olhava fixamente para ela com a cara mais bocó possível, sem disfarçar.
A moça diminuía as gargalhadas, notara que o comico rapaz a encarava sério, sem piscar ou demonstrando qualquer expressão facial. Sem graça cumprimentou-o com um singelo aceno, mas ele parecia paralisado. Ao pigarrear seguidas vezes conseguiu trazer de volta a consciência do homem estranho, que sem saber o que dizer ou fazer diante daquela constrangedora situação, a chamou para almoçar juntos. Ela interessada, aceitou o convite e o cobriu com simpatia e personalidade.
Luiz, pela primeira vez na vida havia se apaixonado, aquela mulher desinibida, cheia de histórias e experiências que ele achava ser só possível em filmes. As horas passavam, mas ele não cansava de ouvir aquela linda mulher, desligou o celular para ninguém atrapalhar aquele momento único em sua vida.
Ela que gostava de falar, ficou encantada com o jeitinho inocente e puro com que a olhava, a atenção que ele dava e a cada volta do ponteiro se sentia mais especial diante daquele nerd com seus oito graus e meio em cada olho e uma lupa no lugar das lentes dos óculos.


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